Livros | Como eu era antes de você.

Fonte: http://inspirados-oandarilhodotempo.blogspot.com.br/


     Essa é a milésima vez que eu tento escrever uma resenha livre de spoilers. Se não der certo agora, nunca mais dará.

O sonho de uma vida, a vida de um sonho.

   

        A chuva era torrencial. Da janela do segundo andar, não se podia ver ninguém nas ruas, mas dava para ver os seus vizinhos pequenos assistindo televisão. Aquele temporal certamente acabara com a diversão deles, mas apenas iniciara a de Margot.
        Todas as vezes que chovia, ela sentava em sua poltrona encardida, com uma xícara de chá quentinho e um bom livro em mãos, mas bastava poucas folhas para sua mente viajar. Margot gostava de imaginar, sonhar. Se via com mochila nas costas, tênis sujos nos pés e uma longa lista de países visitados. Ao contrário de muitas garotas de sua idade, ela não queria um namorado, um perfil na internet bombado, ou a nova coleção de maquiagens da MAC. Ela queria viajar o mundo inteiro, explorando, se encantando, aprendendo. Queria conhecer do Oriente ao Ocidente, do Japão ao Reino Unido, dos jeans às burcas. Queria viver por algum motivo, sorrir por alguma razão.
        Seus pais não entendiam isso. Quando Margot contou-lhes sobre seus planos, anos atrás, eles riram e balançaram as cabeças, como se fosse alguma brincadeira. Não era. Nunca foi. E por eles continuarem duvidando da intensidade de seu sonho, assim que pode, catou dinheiro, roupas, documentos, e sumiu, para bem longe. Até hoje, ela sabe que seus pais e parentes próximos a criticam por não viver no mundo real.
        Seu roteiro de viajem estava escrito e ilustrado em um enorme caderno decorado com retalhos de pano. Na terceira porta do seu armário, uma economia de anos para sua grande viajem, armazenada em embalagens de vidro de jujuba. O guarda-roupa já estava reformado, assim como si mesma, baseados nesse sonho. Nada mais importava. Não precisava de dinheiro, fama, namorado e muito menos bens materiais para se manter feliz. Só precisava, todos os dias, colocar um pouco de seu sonho em uma tigela, misturar com fé, esperança e paciência e alimentar sua alma. O dia chegaria. Ela cria nisso.
         E chegou. Chuvoso, frio e preguiçoso, do jeitinho que ela gostava. Enfiou suas roupas em um mochila enorme, junto à documentos, artigos de higiene, objetos com valor sentimental e uma foto do seus pais. Não hesitou em momento algum em abandonar seu antigo apartamento, aquele lugar nunca foi sua casa. Foi de ônibus para o aeroporto, sentindo um prazer um tanto desprezível em ver aquelas pessoas pela última vez (pelo menos durante um bom tempo). Margot queria mais do que os limites podiam oferecer. Ela queria tudo e mais um pouco. Fronteira alguma conseguiria conter isso.
        Embarcou para a Austrália no voo das 3h15. Poltrona 28, janela. Podia ver as nuvens carregadas lhe sorrindo. E ela sorriu também. Naquele dia, percebeu que, aconteça o que acontecer, seja qual for a situação, o mundo inteiro era só dela. A alma alimentada, agora, gargalhava de barriga cheia. Quantos sonhos seria capaz de guardar lá dentro até que ela vomite um enxurrada de realização? Margot adoraria descobrir.

Uma dose de disposição, por favor!

    



        É complicado fazer definições. Seja de caráter, de músculos, de vida... E, principalmente, de personalidade. Já reparou no quão difícil é ser você mesmo? E ainda mais quando se é diferente dos outros? Tendo que viver um novo dia à cada vinte e quatro horas, sem nem uma mínima ideia de como vai estar quando deitar para dormir. Expor opiniões, discordar, discutir, persistir. Isso tudo me parece tão cansativo que nem tenho vontade de sair da cama. Ser eu mesma dá muito trabalho, e eu realmente não estou afim disso. Mas boa sorte para você, que acabou de bater a porta de casa, obstinado à expor sua personalidade forte para o seu sogro que não te aceita de jeito nenhum. Espero que dê tudo certo. E para você que está aí, deitado com preguiça de viver, eu acabei de passar um café. Servido?

Piloto automático



O despertador toca às 06h da manhã. Ela se levanta, escova os dentes e se olha no espelho. Ê frustração. Toma banho, café, pega a bolsa e vai trabalhar em um emprego que odeia, com um chefe que adora atazaná-la. Mas é mais fácil ficar com o que se tem do que correr atrás de algo melhor. Sai às 07h da noite, e pega um táxi para voltar para casa. Pede a mesma pizza de sempre, nunca se dando ao luxo de provar qualquer outro tipo de comida ou sequer outro tipo de pizza, e come com Coca-Cola e ketchup. Lava a louça e assiste reprises de seriados antigos até cair no sono.
    No dia seguinte, o despertador toca às 06h da manhã. Ela se levanta, escova os dentes e se olha no espelho. O mesmo cabelo de sempre. O mesmo rosto de sempre. O mesmo corpo de sempre. A mesma vida de sempre. Nada ali vale à pena guardar. Repentinamente decidida, toma banho, café, pega a bolsa e vai para o trabalho. Com prazer, anuncia soletradamente ao seu chefe que pede demissão e passa no RH para acertar tudo. Vai ao salão e pinta o cabelo da cor que sempre quis pintar, mas nunca teve coragem: azul. Faz várias tatuagens de uma vez só e encontra um cachorro na rua, o qual leva consigo. Na volta pra casa, passa no restaurante de comida chinesa da esquina e compra um Yakisoba pra viagem. Come rapidamente, toma uma ducha e leva o novo cãozinho para passear no calçadão da praia. Conhece alguém interessante, e volta para casa com um sorriso bobo. Coloca uma música para tocar e vai dormir contente.
    E na manhã seguinte, o depertador toca às 06h das manhã. Ela se levanta, escova os dentes e se olha no espelho, com satisfação. Cabelo novo, tatuagens, auto-estima lá em cima. Sorri de orelha à orelha. Nunca é tarde para desligar o piloto automático e assumir o controle de sua própria vida.

Vidas enlatadas.

    


Todos os dias, eu pego dois ônibus para ir pro meu colégio no centro da cidade. Na maioria das vezes, eu sento na cadeira do corredor, o que me permite observar os passageiros com maior atenção, já que não estou vidrada nas ruas que passam na janela. Hoje o segundo ônibus está especialmente cheio. De verdade. Lotado. E eu definitivamente a-m-o quando isso acontece. Me dá uma distração.
    Você já reparou a grande diversidade de pessoas que frequenta transporte público? Não? Pois eu reparo. E costumo imaginar que tipo de vida essas pessoas tem. Quero dizer, elas não são apenas figurantes da minha vida. Elas são protagonistas de suas próprias estórias. E isso me instiga inexplicavelmente. Exemplo: olha ali na frente. Ali, no lugar para cadeirantes. Aquela garota parece tão triste... O que será que aconteceu com ela? Será que o namoro terminou? Será que não foi aceita na universidade? Ela tem cara de enfermeira. Será que não conseguiu o emprego que queria? Será que perdeu um ente querido? Será que tem um sonho impossível? Será que está grávida e o pai do bebê a abandonou? Será que ela não se sente amada? Será que realmente não a amam? Tadinha. De qualquer forma, ordeno a mim mesma lembrar de orar por aquela garota. Sinceramente quero que ela seja feliz.
    Do meu lado tem um cara que não para de olhar para a mulher que está ao seu lado. Não aquele olhar de luxúria que os tarados tem e tal. Um olhar apaixonado mesmo. Talvez eles se conheçam. Será? Será que eles fazem faculdade ou trabalham juntos? Talvez eles morem no mesmo prédio. Talvez eles sejam primos de terceiro grau. Talvez eles se conheçam de festas. Talvez sejam melhores amigos. Talvez sejam piores inimigos. Talvez sequer se conheçam. Quem sabe, não é? Pergunto se o cara quer que eu segure a pasta dele e aproveito a deixa para sorrir e apontar a garota com os olhos. Ele entende, mas sorri triste e faz que não com a cabeça. Não sei se para a minha pergunta ou para minha insinuação. Talvez ela seja namorada do irmão dele. Ou do melhor amigo. Uma pena. Eles formariam um belo casal.
    E por falar em casal, tem um bem na minha frente. A garota na janela e o garoto no corredor. Eles dividem o fone de ouvido e sorriem como bobos um para o outro. Como será que eles se conheceram? Será que foi no colégio? Boa parte dos relacionamentos começa lá. Será que eles são vizinhos? Será que eles são parentes? Será que ela era a melhor amiga do melhor amigo dele? Será que ele era namorado da prima dela? Prefiro acreditar que não. Será que eles eram visitantes frequentes da mesma lanchonete? Talvez ele fosse o entregador de pizzas da pizzaria que ela adorava. Talvez ela fosse namoradinha dele desde a infância. Não tenho certeza de nenhuma das minhas especulações, mas sinceramente quero que eles dêem certo. É tão raro ter um relacionamento duradouro hoje em dia...
    Derrapo meus olhos para outra direção e encontro, nas escadinhas da porta para cadeirantes, uma garota bem parecida comigo. Ela tem os mesmos cabelos e o mesmo tipo de corpo, e olha fixamente para um cara de dreads não muito longe. Sei o que está passando por sua cabeça. Posso ver nitidamente em sua expressão que ela está fazendo o mesmo que eu: tentando imaginar o que acontece na vida daquelas pessoas. Talvez ela seja solitária e entediada e está fazendo isso para passar o tempo. Talvez ela seja uma daquelas pessoas que são contra qualquer tipo de tecnologia e como não tem um iPod para escutar música, sua diversão é observar. Ela tem cara de vegetariana e leitora compulsiva. Talvez tenha esquecido seu livro de bolso em casa (embora não seja recomendado ler quando se está de pé em um ônibus lotado). Não sei. Não faço ideia, mas fico imensamente feliz de saber que não sou a única a adotar esse hobby.
    Desvio os meus olhos para a janela e dou um suspiro.
    Pela milésima vez, passei do meu ponto.

Adorável vida morna.

    Não sou adepta a mudanças. Mesmo que eu reclame da monotonia que é a minha vida, a mesmice é confortável. Se você permanece em sua zona de conforto, nada poderá lhe atingir. Não tem porquê ter medo, já que vai ser tudo igual a como foi ontem ou anteontem ou na semana passada. Mudanças são difíceis de se acostumar. São a quebra de sua rotina. E, às vezes, isso não significa uma coisa boa.
    Prefiro ficar aqui, tendo a mesma vida de sempre. É mais agradável. É mais confiável.

O jeito do ato de ser feliz

    Mas eu sou feliz do meu jeito. E você é feliz do seu jeito. E todos aqui são felizes de um jeito próprio. Se alguém tentar ser feliz de um jeito que não é seu, provavelmente vai ser triste por toda a sua vida. Você me entende? É por isso que estamos aqui. É por isso que respiramos, que vivemos. Para procurar maneiras de ser feliz. Porque a fórmula da felicidade é individual e nunca é descoberta por inteiro; apenas aos poucos, por toda a sua vida.